Crítica

Dois barbudos se beijando incomodam mais sim

Uma resposta à ‘’TransAdvocate’’ Brasil

 

kiss gay

 

Um número considerável de gays e lésbicas já percebeu que as questões envolvendo ‘’identidade de gênero’’ e orientação sexual são antagônicas, irreconciliáveis e suas respectivas demandas não relacionadas entre si, apesar dos malabarismos de retórica produzidos pelo transativismo e pelo mainstream do movimento LGBT no sentido de aprofundar as ‘’interseccionalidades’’, além da defesa acrítica do termo ‘’comunidade’’ empregado em seu sentido sociológico para as ditas pessoas ‘’LGBT’’, um grupo de indivíduos vinculados apenas na modernidade, inequivocamente no intuito de produzir uma falsa naturalização identitária com vistas à validação política.

Um dos efeitos dessa vinculação ao movimento de ‘’identidade de gênero’’ é o retorno do modelo sexológico afeminado proposto por Magnus Hirschfeld no começo do século XX, uma fantasia vitoriana que buscava incluir homens e mulheres homossexuais dentro de um continuum hipoteticamente biológico chamado ‘’terceiro sexo’’, que funcionava como um amálgama entre orientação sexual e ‘’identidade de gênero’’, diluindo a sexualidade não normativa para explicar tudo através das lentes do ‘’gênero’’.

É interessante observar que em inúmeras culturas pré-modernas, entretanto, essa vinculação é inexistente. Não há nenhum termo antigo que possa se equivaler ao acrônimo ‘’LGBT’’; mesmo o ‘’sodomita’’ que em determinados períodos foi aplicado tanto para homens quanto para mulheres, permaneceu na maioria das vezes como uma denominação comum e restrita a homens homossexuais.

Uma das estratégias do movimento de transgeneridades não por acaso consiste em reforçar a dicotomia do ‘’afeminado’’ versus o ‘’masculino’’, promovendo olimpíadas de opressão cujo propósito vai muito além de semear discórdia e auto-ódio  na comunidade gay; o objetivo é induzir uma reengenharia da homossexualidade, ressignificar e esvaziar o próprio conceito dela por meio da inserção da homossexualidade ‘’afeminada’’ nos discursos das transgeneridades, dentre outras artimanhas. Um bom exemplo disso é o texto da ‘’Transadvocate Brasil’’ chamado ‘’ Dois barbudos se beijando incomodam mais que um afeminado?’’

http://brazil.transadvocate.com/genero/dois-barbudos-se-beijando-incomoda-mais-que-um-afeminado/

Em um dos trechos mais cruciais para o argumento central pode-se ler a alegação que sustenta que:

‘’ Afinal de contas, um gay másculo só incomoda a sociedade em companhia de outro homem, ao contrário da gay afeminada que choca a sociedade pelo simples fato de existir’’

O pressuposto de que os gays convencionalmente masculinos só incomodam a sociedade ‘’em companhia de outro homem’’ é bastante problemático; é o que acontece quando as questões sobre a sexualidade subalterna são substituídas pelas questões focalizadas no ‘’gênero’’.

A retórica simplista das feministas, transativistas e movimento LGBT, no geral e habitualmente considera a masculinidade um ‘’bloco monolítico’’, sem fissuras e hierarquias, e, portanto todos os homens sob esta perspectiva e com expressão de gênero ‘’masculina’’ automaticamente compartilham dos mesmos privilégios. Que incrível seria se as coisas fossem realmente assim não é mesmo?

Em primeiro lugar, na ânsia de defender a olimpíada de opressão em favor dos homens com expressão de gênero afeminada se omite o fato de que orientação sexual e expressão de gênero nem sempre estarão forçosamente relacionadas; existem homens heterossexuais afeminados, pasmem. Neste caso, será que o homem heterossexual teria menos privilégios que o homem homossexual convencionalmente masculino?  Não terá a face estrutural da homofobia maiores poderes contra  este último que sobre o primeiro?

Cabe aqui uma reflexão; a expressão de gênero afeminada é vítima de preconceito per si, em função dela mesma, ou em função do senso comum associar a homossexualidade com afeminação? É a sexualidade desviante e subalterna que confere originalmente má fama à expressão de gênero afeminada ou o contrário, como querem as transativistas? Se a simples visão de um homem afeminado é o catalizador de todo o preconceito do universo, por que então homens gays afeminados se dão o trabalho de adotar relações heterossexuais ao ponto de casar-se com mulher e ter filhos para escapar do opróbrio da sociedade como foi o caso do estilista Dener Pamplona? Que Dener sofria homofobia por ser afeminado não tenho a menor dúvida; mas o fato dele se refugiar no casamento heterossexual me faz pensar que ao menos para ele, por pior que fosse a homofobia resultante da expressão de gênero, ainda pior seria a confirmação da sexualidade desviante não é mesmo?

Se for verdade que um homem gay convencionalmente masculino só incomoda a sociedade ‘’em companhia de outro homem’’, os efeitos da homofobia só poderiam atingir tais homens em circunstâncias muito especiais e raramente, em ‘’flagrante delito’’.  E somente no Ocidente, onde tais manifestações de homoafeto são amplamente visíveis.

O problema na sustentação desse argumento é a natureza clandestina das relações do mesmo sexo, uma natureza historicamente bem estabelecida.

Uma natureza que a despeito da clandestinidade, nunca impediu a homofobia de manifestar-se de variados modos dado que é um fenômeno sistêmico, estrutural, permeado por elementos culturais complexos e diversificados.  Com efeito, segundo declaração de Subhi Nahas, um gay sírio refugiado e ativista da ‘’Organization For Refuge, Asylum & Migration ‘’(ORAM), o grupo terrorista ISIS estava poupando ‘’homens homossexuais afeminados “para o prazer dos homens mais velhos”, ao passo que os homens “masculinos” suspeitos de serem homossexuais estavam sendo mortos (‘’The Secret, Hypocritical Gay World of  ISIS’’, para o Daily Beast). Frisei o ‘’suspeito’’ justamente para demonstrar o equívoco do pressuposto das transativistas, pois não é absolutamente necessário que alguém testemunhe o ato homossexual para que a ‘’pessoa gay convencionalmente masculina’’ seja criminalizada e punida.

Retomando, pois o raciocínio; se for verdade que um homem gay convencionalmente masculino só incomoda a sociedade em companhia de outro homem, como explicar os ataques homofóbicos conduzidos para cima de gays com expressão de gênero masculina quando estão desacompanhados dos parceiros?

Em 2013 um jovem russo de 23 anos estava bebendo com dois amigos, celebrando o Dia da Vitória, comemorado na Rússia em 09 de Maio. Em um dado momento, provavelmente em função dos efeitos do álcool, o rapaz assumiu para os amigos a sua homossexualidade. A confissão aparentemente foi o estímulo para uma explosão de violência que se seguiu; ele foi espancado, sofreu diversos ferimentos inclusive nos genitais, foi sodomizado com garrafas e a cabeça esmagada por uma pedra.

Esses exemplos tornam um tanto quanto frágil a ‘’teoria’’ de que apenas o afeminado e pessoas transgênero chocam a sociedade pelo simples fato de existir. Partindo de um ponto cego onde orientação sexual se mistura com expressão de gênero, masculinidades subalternas se confundem com a masculinidade hegemônica, homofobia individual se torna indistinguível da homofobia sistêmica e pessoas homossexuais são desprovidas de ontologia em contraste com o portador de performances de gênero, a TransAdocate segue argumentando baseada na suposição de que a masculinidade convencional no homem gay é uma espécie de armário, que  o protege consistentemente da opressão social, ainda que o homem gay em questão seja… assumido.

Ativistas trans esquecem que durante séculos o regime político do heterossexismo já havia encontrado variadas formas de driblar a segurança da clandestinidade da subcultura homossexual; investigações iniciadas e conduzidas por meio de boatos, intrigas e traições e confissões extraídas através de tortura, prisão e chantagens.  E mais modernamente, como no caso do ISIS, na ausência de testemunhas, primeiro estupra-se o suposto homossexual; em seguida condena-se ele à morte, tudo muito prático.

E veja bem que não estou aqui defendendo em momento algum que homens gays afeminados ou pessoas trans não sofrem preconceito, discriminação e violência em função da expressão de gênero e identidade de gênero; tampouco estou considerando que o locus frequentemente destinado aos gays afeminados e travestis nas representações de mídia seja privilegiado.  Porém, embora não seja privilegiado o locus, a ausência do homoafeto e homossexualidade masculina explícita é significativa.

Se por um lado a chacota e a exotificação apontam para preconceitos sociais generalizados, a censura prévia  do homoafeto e homossexualidade mesmo sob a forma da chacota e da exotificação demonstra inequivocamente  que algo mais grave está acontecendo; não por acaso  na escala de Allport a antilocução é o grau mais ‘’suave’’ em relação à discriminação, que conduz aos ataques físicos e ao extermínio.

Em face disso, convido, pois, as transativistas e seus aliados a repensarem a questão homossexual sob outros aspectos mais sutis; ao menos deveriam tentar colocar em prática no seu próprio ativismo as suas admoestações constantes à comunidade gay em favor de solidariedade política, sem deixar de ressaltar que meu propósito com este texto não é alimentar nenhuma olimpíada de opressão, mas tão somente oferecer um contraponto à retórica gayfóbica androfóbica do movimento LGBT e seus congêneres.

 

Walter Silva ||| Symposium ©

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3 pensamentos sobre “Dois barbudos se beijando incomodam mais sim

  1. O incômodo é não poder fugir. Fazem muitos anos quando eu e o meu companheiro começamos a viver juntos, algumas pessoas que conhecíamos nos disseram que não iriam nos convidar como casal – só individualmente. O problema na cabeça deles (imagino) era que juntos a homosexualidade era inegável.

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